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Internet precisa de ser culta e adulta, legislada e responsável

A criação que hoje é a base das nossas vidas, que é meio para que o leitor possa estar de olhos postos neste artigo, cresceu e o mundo nem sempre a acompanhou. Estamos desfasados, temos de a discutir, saber optimizá-la e no fim, se calhar, concluir que afinal o que precisamos é de abrandar.

Data: 07.11.2018

Internet precisa de ser culta e adulta, legislada e responsável

Chegámos à maturidade, ao momento de uma comédia romântica em que os pais se sentam ao lado do filho e lhe explicam que o corpo vai começar a mudar, que está numa altura da vida em que é preciso tomar decisões importante em relação ao futuro nos estudos, em que há responsabilidades que têm de ser assumidas. Já não se é uma criança e por isso exige-se uma postura mais adulta no dia a dia.


Mas isto não é ficção. Não há replay, não há botão para retroceder e por isso torna-se fundamental discutir para que os capítulos da nossa história que nos envergonham, protagonizados pelos atores errados, não voltem a acontecer; pelo menos da mesma forma em que aconteceram nos últimos tempos. O segundo dia da Web Summit foi uma conversa entre setenta mil pessoas sobre uma internet que chegou à idade adulta, que tem de sair de casa dos pais, vestir fato e gravata e discutir com governos, modelar espaços de discussão importante. Há responsabilidades que têm de ser encaradas, pelos criadores de conteúdo, pelos utilizadores e pelos Estados.


“A internet é utilizada centenas de vezes por dia, nos telemóveis, nos computadores… e não há regras. Quando se vai ao médico, se compra comida, de viaja de avião, sentimo-nos seguros, a maioria sente-se. Existe regulação. Então porque não se regula esta ‘maldita’ área? Por exemplo, com um instituto”, assinalou Cristopher Wylie o denunciador (whistleblower) canadiano de 29 anos formado na London Scholl of Economics e antigo diretor de investigação na Cambridge Analytica (CA), entre aplausos das centenas de pessoas que enchiam a Altice Arena, no Parque das Nações.


“Quem é responsável pela regulação da internet nos Estados Unidos?”, questionou-se no decurso da intervenção. “Dormimos mais com as novas tecnologias que com pessoas, e não há regras!”.


A indignação de Wylie, que exibiu uma camisola com a frase "Prendam o Presidente", está diretamente relacionada com as consequências da sua passagem pela CA, uma empresa com gabinetes em Nova Iorque, Washington e Londres especializada em política norte-americana, que combinava ferramentas de exploração e de análise de dados e que esteve no centro de um escândalo, em associação com o Facebook, depois de ter utilizado dados pessoais privados de 50 milhões de contas de utilizadores da rede social, aos quais a empresa não tinha acesso direto. Esses dados foram utilizados para beneficiar diversas campanhas políticas no decurso das presidenciais norte-americanas de 2016.


Não é possível retroceder. Nem na eleição de Trump, como sugeria a camisola de Wylie, nem na eleição de Jair Bolsonaro, presidente-eleito do Brasil. E o leitor não tome a escolha destes dois nomes por embirração ou qualquer associação política do autor deste texto, ao final de contas estes são os nomes dos dois protagonistas de duas eleições que trouxeram ao de cima um dos termos mais repetidos este ano: fake news.


A desregulação e a produção de informação nas e para as redes sociais criou um problema de desinformação. Seguindo o mundo dos alternative facts (factos alternativos), em que a verdade também passou a ter pontos de vista; uma visão plantada após a eleição de Trump.
No palco principal da Web Summit, o presidente executivo do The Guardian, David Pemsel, vincou que “os líderes [dos países] têm de intervir e tomar controlo da situação”.


“O mundo está desconectado e fragilizado”, observou, aludindo a questões como a saída do Reino Unido da União Europeia (‘Brexit’), às posições do Presidente norte-americano, Donald Trump, e ao surgimento de nacionalismos na Europa, aludindo à necessidade de uma intervenção sobre as notícias falsas “tem de ser governamental e até mesmo empresarial”, sustentou.


“Tem de haver outra maneira de intervir, por exemplo, desenvolver um contrato social como sugeriu Tim Berners-Lee [fundador da Web). “A Internet potencia milhões de infrações legais e incitamento ao ódio. Milhões de pessoas podem fazê-lo e aí temos milhões de crimes, como lidamos com isto?”, questiona, sublinhando que as instituições têm de acompanhar melhor os desenvolvimentos tecnológicos.


O tema segue e prossegue, discute-se se a internet deve ter ou não carta de condução, até que horas pode sair à noite. Olha-se para as vezes que nos castigou e, sempre sem esquecer o replay, Adam Hadley, diretor do projeto Tech Against Terrorism (Tecnologia contra o Terrorismo), lembra o inverso da moeda, que a lei da proteção de dados também ajuda a proteger os extremistas salvaguardando a sua privacidade.


“A imunidade nas grandes plataformas acabou e mudaram-se para as pequenas plataformas. Isto é outra consequência das decisões políticas, que por vezes não são pensadas”, notou, explicando que “acabar com os conteúdos não remove a ameaça, até a pode tornar mais forte” reconhecendo-lhes credibilidade. E deu alguns exemplos: “os académicos que investigam terrorismo no Reino Unido, nas universidades, não o podem fazer por causa das preocupações quanto à violação dos dados pessoais e o direito dos terroristas à privacidade, o que é um desafio para a atividade académica que envolva dados pessoais.


Perdemo-nos na discussão. E perdemo-nos na imensidão do que ainda está no princípio. A internet é a base, é a reforma necessária do mundo digital que qualquer governo internauta teria de ter no programa eleitoral para poder vencer uma eleição no ciberespaço. A tudo isto ainda temos de somar a inteligência artificial ou as criptomoedas, por exemplo. Estamos só no início.


Mas se a puberdade da internet não se viverá em duas horas como numa comédia romântica, desengane-se que temos tempo. Tudo se está a tornar mais digital, o mundo está a evoluir a uma velocidade alucinante. Perdemos o controlo daquilo que criámos, perdemos o controlo do nosso tempo.


A discussão é como uma timelapse, os frames passam a uma velocidade excessiva. E é aí que Nico Rosberg, antigo campeão do mundo de Fórmula 1, de 33 anos, ele próprio um millennial diz stop. Um homem que por norma não abrandava, pede que desliguemos o telemóvel, que mantenhamos o foco.


E talvez seja o mais novo, na idade e nisto das startups, a ter razão. Talvez a solução seja a moderação, porque com a moderação vem a concentração, vem o foco. E assim podemos focar-nos em nós, na verdade e na democracia.


Fonte: Sapo24



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