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RTP quer aumento da taxa do audiovisual em 2019 e publicidade na TDT

Gonçalo Reis defende que o operador público está a cumprir orçamentos rigorosos e a prestar mais serviço público, pelo que o Governo deve cumprir o seu quinhão e aumentar a CAV pelo valor da inflação. Não receia os novos canais de desporto e informação na TDT mas quer passar a ter publicidade na RTP3 e na RTP Memória.

Data: 13.09.2018

RTP quer aumento da taxa do audiovisual em 2019 e publicidade na TDT

Em entrevista ao PÚBLICO, o presidente do conselho de administração da RTP, Gonçalo Reis, discute o lugar que a RTP deve manter como referência na paisagem televisiva portuguesa, à margem das guerras de audiências dos seus concorrentes directos. Defende que o esforço da RTP deve ser recompensado pelo Governo com um aumento da Contribuição para o Audiovisual, que não faz sentido aumentar os limites de publicidade na RTP1, e que a RTP2 é um luxo "e ainda bem".


Na segunda parte desta entrevista, Gonçalo Reis garante que as polémicas com a direcção de informação da estação estão ultrapassadas e que há condições para reforçar "a confiança, o pluralismo e a isenção".


A RTP apresenta nesta quinta-feira à tarde as novidades de programação dos vários canais para os próximos meses.


O mercado televisivo está a mexer muito. A RTP também está à procura de reforços?
Acho interessante que o mercado mexa: mostra que as televisões generalistas pesam, movimentam recursos; e para quem via este sector em declínio é uma boa manifestação de vitalidade. A RTP está atenta. Não vamos entrar em aventuras emocionais nem fazer apostas demasiado fortes no entretenimento que sacrifiquem as nossas responsabilidades globais de diversidade e qualidade. Traduzindo: não vamos gastar dinheiro numa apresentadora especialíssima, de maneira que coloque em causa a produção de documentários, de programas sobre conhecimento ou ciência.


“Especialíssima”... gostava de ter Cristina Ferreira por cá?
Acho que nós temos óptimas [apresentadoras]. Mas não vamos ficar parados a ver a banda passar. Sei que o dinheiro conta mas a RTP é hoje uma empresa muito atractiva, há uma certa noção de serviço público, de credibilidade e qualidade que pesa nas opções que muitos profissionais, apresentadores, comentadores, jornalistas, humoristas, músicos fazem.


Quanto precários vão integrar?
Provavelmente abaixo dos 260 que prevemos no orçamento, depende das decisões da comissão.


A entrada em funções desta administração foi um processo que se arrastou por meses. Isso adiou decisões importantes?
Sou gestor, preocupo-me com o aqui e agora. Temos uma administração em funções desde 1 de Junho, um projecto estratégico e uma ambição clara para os próximos anos: afirmação de uma lógica de serviço público forte, diferenciada, com personalidade própria mas que ao mesmo tempo tenha competitividade. E agora temos todo o caminho para executar as nossas ideias.


Faria sentido acabar com o direito das Finanças sobre a nomeação do administrador financeiro?
Sou muito prudente sobre o modelo de governança da empresa. Mas não vejo nada de dramático aí.


A taxa do audiovisual não aumenta desde 2016. Vai defender o seu aumento no OE2019?
A RTP tem uma estabilidade financeira rara: tem tido resultados operacionais positivos de dez milhões de euros, resultados líquidos marginalmente positivos, uma estabilidade da dívida com um padrão historicamente baixo para a RTP de 100 milhões de euros (60% são do edifício sede). O financiamento da RTP é dos mais baixos da Europa. Até a Grécia, a Bósnia ou a Macedónia têm recursos superiores para o audiovisual. Nos últimos anos, com esforço, sacrifício e empenho interno, a RTP lançou novos canais na TDT, abriu os arquivos históricos, aumentou o apoio ao cinema e produção independente, e à divulgação de áreas culturais. Actuando numa  situação de concorrência, de mercado, em que as exigências são crescentes, a RTP tem de ter os meios…


Argumentos típicos para o aumento.
É fundamental que cada parte cumpra o seu quinhão: a RTP está a prestar mais serviço público, ao Estado caberá ajustar a Contribuição para o Audiovisual de acordo com a inflação tal como a lei estipula.


Só a inflação deste ano ou acumulada?
Cabe ao accionista decidir se faz uma actualização anual ou periódica. 


Foi um ano caro com a Eurovisão e o Mundial. Como estão as contas deste ano?
A Eurovisão teve um efeito muito positivo para Portugal, e de imagem e credibilidade para a RTP, mas terá um custo líquido de cinco milhões de euros (o orçamento foi de 19,5 milhões). Não falamos sobre custos contratuais do desporto.


Agora, é ponto de honra do nosso projecto estratégico: o equilíbrio operacional vai manter-se nos próximos três anos. Este ano vamos ter um resultado operacional positivo sem qualquer margem de dúvida e vamos lutar até ao final do ano para ter resultados líquidos próximos de zero.


Com implicações no funcionamento da empresa?
Com muito esforço, empenho e sacrifício e medidas de gestão eficiente na área de compras, de processos. E há opções: este ano fizemos a de não adquirir a Champions.


À custa do investimento. Na rádio, o emissor da Antena 1 para Lisboa está avariado e usam o da Renascença...
Já está a funcionar desde final de Agosto, foi uma situação de tempestade, visitei-o na semana passada. Foi reparado e até com ganho de qualidade de emissão na zona de Lisboa.


De quanto será o orçamento de 2019?
Muito semelhante a 2017: de 200 milhões de euros. No próximo ano temos de executar um programa de investimento em equipamento de 16 milhões de euros – para a rádio, para TV, de exteriores, de distribuição do sinal da rádio e equipamento que permita migrar para o HD; agora vamos reformular os estúdios da rádio com visual radio.


A última vez que a RTP fez um programa estruturado de investimento foi em 2004: viemos para esta sede, juntámos a rádio e a TV e fizemos o Euro 2004. Os equipamentos de exterior de TV que adquirimos já eram em segunda mão. Portanto, hoje temos equipamentos do tempo da Expo'98 e do Euro2004 em segunda mão. Temos uma situação de obsolescência num tempo em que as exigências do cidadão são altas em termos de qualidade, de produção em HD, de distribuição do sinal de rádio, de acesso a canais internacionais.


A RTP2 vai ter reforço de grelha. Vamos ter apostas em ficção e apoio ao cinema e produção independente; e apostas na rádio não só em conteúdo mas em termos de infra-estruturas (e a rádio deve ser discriminada positivamente) e uma componente digital com vários projectos.


Sonhe um pouco: o que gostaria de ter na RTP que não tem?
Temos valores excelentes. A mim cabe-me definir a estratégia e o caminho, as definições em concreto sobre programas, apresentadores e contratações cabem aos directores de conteúdos.


Mas também é espectador.
Sou um espectador atento e gosto de desafiar os directores a fazerem mais e melhor. Vejo muito a RTP2. É um caso em que o conceito e o produto são tão bons que a estratégia tem de ser completamente soberana face às audiências. Agora, se me perguntar se é um luxo de um canal... É um grande luxo de um canal e ainda bem que podemos oferecer um canal desse luxo e dessa qualidade aos portugueses. Tem séries europeias que não passam em lado nenhum, tem documentários maravilhosos (a RTP encomenda e produz 90% dos documentários em Portugal); tem programas de património, de ciência, é um dos poucos canais europeus em sinal aberto que passa artes de palco: teatro e dança.


Então o que lhe falta? Público?
A RTP2 tem o público que tiver. Nunca disse à Teresa Paixão [directora] para guinar o canal e piscar o olho às audiências.


Há dois anos, dizia-se confortável com os 14% de audiências e o terceiro lugar da RTP1. Hoje está nos 12%, mantém essa visão?
Temos de as ver as audiências no global. E a nossa posição hoje em dia no global é mais forte do que se julga: 73% dos portugueses vêem um programa, ouvem ou lêem conteúdos da RTP todas as semanas. No conjunto dos canais de TV, são 17% de audiência; são 10% na rádio: a Antena 1 ultrapassou a Renascença, tem o dobro da TSF e é líder na informação. Se formos para o digital: cinco milhões de visitas e visualização de conteúdos no RTP Play todos os meses. Estes indicadores mostram uma relação muito forte entre o público e a RTP.


Vejo uma tendência de fragmentação de mercado, há mais plataformas, e a RTP acompanha a tendência dos canais generalistas europeus.


Está a reconhecer que a RTP já não é um player de peso no mercado?
Não tem a ver com o operador mas com a mudança de hábitos dos públicos, com a vontade de as pessoas terem cada vez mais acesso a opções fragmentadas, com o crescimento da oferta do cabo, das outras plataformas. Essas realidades estão lá. O que temos de fazer é reagir, ou seja, mantendo a boa qualidade da nossa oferta, mantendo as grandes âncoras da informação, desporto e entretenimento, mantendo um equilíbrio saudável entre canais mais elitistas, culturais, e canais mais todo-o-terreno, de grandes públicos, mas dando muito mais enfoque ao digital.


Tem medo de perder mais audiência com os dois canais de desporto e informação que serão lançados na TDT?
Não. Acho muito interessante o reforço da TDT, tem o mérito de ser de acesso universal e levar os conteúdos a toda a gente. Terá vários efeitos: o cidadão tem mais escolha, mas também a rede é mais valorizada, as pessoas terão melhor experiência e no global verão mais conteúdos. Mas é importante melhorar as condições de visualização e captação de rede, que não são as ideais, há níveis de serviço por cumprir e as instituições devem actuar sobre isso.


Vai pedir ao Governo que permita publicidade na RTP3 e na RTP Memória?
Não sou eu quem tem que pedir, mas é o momento adequado para ponderar por que é que os canais da RTP têm uma excepção negativa.


E a RTP1 deve ter mais publicidade por hora?
Não, nem pensar, não faz sentido.


Como vai enfrentar a concorrência na TDT?
A RTP tem de seguir o seu caminho do lado da informação. Temos uma presença e atributos fortes, somos reconhecidos como a marca de maior confiança: o estudo do Reuters Institute escolhe todos os anos a RTP como a marca de informação de maior confiança em Portugal, comparando com todas as TV, rádio e imprensa escrita. E na área do desporto somos fortes em aberto, vamos ver como o mercado reage.


O que destaca de diferente em relação ao primeiro mandato?
Nos últimos três anos a RTP reconciliou-se com os portugueses, com uma certa noção de serviço público, em caminho próprio, apostou em criatividade, em pensar fora da caixa e lançou uma série de iniciativas válidas: livros RTP, arquivos históricos online, aposta nas séries.


Nos próximos anos não podemos regressar à linha comercial que em tempos idos se seguiu e que na prática não a diferenciava dos operadores privados nem por uma linha que chegue a um nível de experimentalismo e de nicho que colocaria em causa a relevância do operador. Temos de seguir uma espécie de terceira via: ser um operador de serviço público com uma matriz de serviço público diferenciador mas preocupada em produzir conteúdos com mais impacto, ser mais global a chegar aos públicos internacionais, ter particular atenção aos jovens, apostar na área do digital, estar presente nos grandes eventos que mexem com os portugueses, estar em todo o território nacional.


Parte dessa mudança deveu-se ao administrador Nuno Artur Silva, que fizera toda a sua carreira anterior no entretenimento. Agora tem um mais ligado às tecnologias. Isso é o sinal dessa valorização do digital?
É uma equipa muito bem balanceada porque o Hugo Figueiredo tem a competência de gestão de conteúdos, especial apetência para o digital e uma posição muito amigável em relação ao cinema e à produção independente. A dupla Nuno Artur Silva/Daniel Deusdado pensou fora da caixa, trouxe muita criatividade que deu frutos, e a dupla Hugo Figueiredo/José Fragoso [director de programas] tem a matriz toda do serviço público com uma dose de preocupação, de eficácia e de impacto que são muito relevantes para a RTP. Eu penso mesmo em duplas; há uma certa calibração das competências.


Fonte: Público



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