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Ilha portuguesa que foi uma casa para militares abre portas aos informáticos

A Terceira viu muitos americanos partirem da Base das Lajes, levando com eles uma fonte de receita para a economia local. Para compensar, quer agora transformar-se num centro tecnológico.

Data: 07.09.2018

Ilha portuguesa que foi uma casa para militares abre portas aos informáticos

O código informático não precisa de ser exportado de barco ou avião, o que é uma das razões para a ilha Terceira – mais conhecida pelos touros e pela paisagem do que pela inovação – se querer transformar num improvável centro tecnológico no meio do Atlântico. Outra razão são as 300 vivendas que os americanos deixaram para trás quando reduziram drasticamente a presença na Base das Lajes, abalando a economia de uma ilha para aonde, ao longo de décadas, trouxeram Coca-Cola, jazz, electrodomésticos, automóveis, empregos e dinheiro.


O chamado bairro americano, onde muitos dos militares viviam, são fileiras monótonas de casas amareladas e praticamente iguais, construídas nas imediações da base, a poucos quilómetros da Praia da Vitória, a segunda cidade da Terceira. Cada uma tem uma garagem e um pequeno jardim à frente. Não existem muros ou vedações a separá-las. As estradas são largas e alcatroadas, e há jardins infantis. Há quem se lembre de ver estas ruas cheias de carros de marcas americanas e de animação festiva por alturas do Natal e do Halloween. Era uma little America, com uma vista ampla para o mar e rodeada de grades, arame farpado e portões metálicos. Agora, parece um bairro fantasma.


Perto das casas está um edifício grande e degradado: uma escola, que ia da pré-primária à universidade. Tem campos de basquetebol, cacifos amarelos, placas nos gabinetes dos professores onde se lêem nomes como “Mr. Ian Biech”. É tudo made in America, das portas às tomadas, que não são compatíveis com os aparelhos eléctricos que se usam em Portugal.


Na base das Lajes chegaram a estar cerca de 3000 militares e civis americanos, muitos deles com família, embora alguns preferissem arrendar casas mais próximas das cidades, onde é mais fácil o acesso a comércio e serviços. Faziam compras, frequentavam os restaurantes e bares, contratavam babysitters. Agora, a base tem 200 militares americanos, que vêm em comissões de serviço mais curtas e não trazem maridos, mulheres ou filhos. Perderam-se uns 400 empregos directos e muitos mais indirectos, bem como alguns milhares de habitantes, numa ilha que tem 56 mil pessoas (é a segunda mais populosa do arquipélago).


A saída dos militares foi mitigada pela actividade turística, que disparou à boleia das ligações aéreas low cost. Os Açores são a região do país onde o turismo mais cresceu: as dormidas de turistas no arquipélago subiram 21% no ano passado. O desemprego caiu de um pico de 18% em 2014, durante a crise financeira, para os actuais 8,2% – ainda assim, acima da média nacional, que é de 6,7%. A taxa de desemprego não é calculada oficialmente para cada ilha, mas o centro de emprego na Terceira tinha 1908 pessoas inscritas em Junho, cerca de 7% da população activa.


Transformar o bairro


Foi num dia mais soalheiro do que chuvoso de início de Setembro que o abandono do bairro americano foi interrompido por uma comitiva de jornalistas. O grupo chegou a convite do Governo Regional dos Açores, que estava desejoso de mostrar o local onde quer fazer nascer um pólo de tecnologia. As vivendas, que estão quase em condições de ser habitadas, vão ser cedidas sem custos às empresas que queiram trazer funcionários para a ilha – falta fazer algumas obras, como mudar a instalação eléctrica para a rede portuguesa. A escola terá obras mais profundas e será transformada em 5200 metros quadrados de espaço para escritórios, refeitório e ginásio.


A reabilitação das instalações, que os EUA acabaram por deixar nas mãos de Portugal, faz parte de uma iniciativa do Governo regional chamada Terceira Tech Island e que é uma das estratégias de revitalização da ilha. “Podíamos ter duas atitudes: esperar que os americanos voltassem, o que chegou a ser discutido, ou encontrar uma actividade económica alternativa, que assentasse na inovação. Fomos ler o mercado a nível mundial e percebemos que tínhamos condições para criar rapidamente um hub de desenvolvimento”, disse o vice-presidente do governo regional, Sérgio Ávila.


O jornal Público contactou o PSD Açores, que é a principal oposição política na região e que no ano passado expressou dúvidas sobre a cedência das casas, por questões legais – mas que disse agora que esse problema estava resolvido e que não tinha críticas à iniciativa. Já o académico Tomaz Dentinho, professor na Universidade dos Açores e que fez estudos sobre o impacto da redução dos militares nas Lajes, considerou “óptima” a ideia de tentar atrair empresas tecnológicas, mas argumentou que a localização das casas, longe das cidades, não será atractiva para os funcionários: “É um disparate em termos de localização. Um aeroporto é um aeroporto. A solução para a Base das Lajes são aproveitamentos civis, estudar se é possível estabelecer [companhias] low cost. As casas podem ser alugadas a pessoas no Verão.”


A Terceira Tech Island também inclui incentivos financeiros ao investimento e ainda (como o governo regional faz questão de lembrar) a fiscalidade açoriana, menos pesada do que a do continente e que a de muitos outros países da Europa. A isto, o programa junta aquilo que os responsáveis esperam ser um trunfo: a formação de programadores informáticos na ilha. Os programadores são o tipo de recursos humanos que escasseiam a nível global, num fenómeno que muitas vezes provoca dores de cabeça (e custos salariais elevados) para as empresas que querem contratar.


“A área da programação informática é uma área onde há falta de pessoas. Por outro lado, é uma área que não tem barreiras à entrada e à saída. Pode ser feita em qualquer sítio, é basicamente um problema de recursos humanos”, observou Ávila. O governo da região fez, por isso, uma aposta dupla: que havendo talento, as empresas viriam; e que, numa ilha onde é fácil encontrar habitantes orgulhosos da tranquilidade e do estilo de vida, não faltaria quem estivesse disposto a ficar, a regressar ou até a mudar-se, especialmente se isso significar emprego quase certo.


Regresso à escola


João Enes é músico e matemático. Morou 17 anos em Lisboa, antes de regressar à Terceira, onde tenciona fazer o trabalho que falta para terminar a tese do doutoramento em Matemática. “Sou de cá. Queria voltar. E o custo de vida em Lisboa está cada vez pior”, explicou. Com 35 anos, é um dos alunos mais velhos na turma da Academia de Código, uma empresa que ensina programação informática e que nos últimos meses formou 40 programadores no âmbito da Terceira Tech Island.


As escolas de programação como a Academia de Código (há várias a funcionar em Portugal) têm uma proposta simples: em poucos meses, transformar qualquer pessoa, mesmo que não tenha conhecimentos técnicos, num programador júnior, com competências que permitem uma entrada quase garantida no mercado de trabalho. O ensino é concentrado em linguagens de programação específicas e de que as empresas precisam. Na Academia de Código, que também dá aulas noutras zonas do país, os cursos custam cinco mil euros. Mas, na Terceira, é o Governo regional que os paga. Em troca, os programadores já formados comprometeram-se a trabalhar na ilha durante um ano (um período que está a ser revisto para as novas turmas). O objectivo é formar 200 programadores até ao fim de 2019.


Há uma meia dúzia de empresas que estão a aproveitar as condições da Terceira Tech Island. Abriram operações na ilha e absorveram quase todos os programadores formados. Estas empresas não são startups, nem são as tecnológicas cujos nomes aparecem mais vezes nos jornais. A mais recente a estabelecer-se na Terceira foi a Glintt, uma multinacional cotada que trabalha na área da saúde. Contratou 12 pessoas formadas pela Academia de Código.


Os programadores formados este ano são uma mistura de histórias de vida. Alguns tinham cursos superiores, outros tinham o 12.º ano e havia ainda quem tivesse cursos profissionais na área das tecnologias. Um quinto eram mulheres. Havia o caso da estudante que desistiu no último ano de Medicina para aprender a programar e o do empresário cuja empresa faliu. Havia também pessoas desempregadas – e até um militar da Força Aérea.


Alfredo Faria, 29 anos, tirou o curso nos intervalos do trabalho na base, onde é responsável por transmitir aos aviões as condições meteorológicas. É um trabalho por turnos, o que lhe permitia ir às aulas de código, mesmo que às vezes isso significasse não dormir. Feito o curso, começou a trabalhar como programador, numa empresa chamada Bring. Acumula este emprego com as funções na Força Aérea. E é também colega de trabalho da mulher, Renata, uma engenheira electrotécnica que não encontrava emprego na Terceira e que também fez o curso de programação.


Na secretária ao lado, André Pereira, 23 anos, explica que deixou um estágio na câmara municipal, onde ganhava o salário mínimo, para aprender a programar. Foi contratado rapidamente, o que lhe permitiu um emprego sem ter de sair da ilha. “Sempre tive preferência por ficar”, diz – e até convenceu a namorada e o irmão a tentarem tirar o mesmo curso. Afirma não ter queixas da vida na Terceira, excepto, talvez, o custo de sair de vez em quando. "É uma ilha. Para onde a gente se vire, é só mar.”


Fonte: Público



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